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Série Respirações da Alma — Ensaios sobre o Bem e o Mal - A Grandeza que Esquecemos



Todos os dias de manhã levanto-me cedo, pego no meu café e faço uma imersão em leitura durante pelo menos uma hora. Há nesse gesto qualquer coisa de silencioso e quase litúrgico. Antes da pressa, antes das mensagens, antes das vozes que disputam o mundo, procuro esse território íntimo onde a alma ainda respira sem pedir licença.

Leio, talvez, para não me perder no ruído.
Leio, talvez, para contrariar a minha própria inquietude.

Confesso que, por vezes, alguns dos livros que me são dados a ler constituem um verdadeiro desafio para mim, que sou uma alma inquieta. Mas talvez seja precisamente essa uma das funções mais nobres da leitura: disciplinar os ímpetos, educar a pressa, contrariar a arrogância das certezas rápidas e obrigar-nos a permanecer diante da complexidade sem fugir.

Não sei se o faço da forma mais correta, mas tenho por hábito ler sempre dois livros em simultâneo. Neste momento, estou a ler dois livros que não me foram impostos; fui eu que os escolhi: Se disser a verdade estarei a mentir-te, do meu estimado amigo Frederico d’Orey, e Um de Nós, sobre António José Seguro.

No livro sobre António José Seguro há várias passagens com as quais me identifiquei profundamente. Mas houve uma definição, logo na página 14, que me ficou particularmente gravada, quando o Professor Gustavo Cardoso afirma que “António José Seguro é um organizador de pessoas para resolver problemas”.

A frase parece simples. Mas não é.

Na sua aparente simplicidade, contém uma visão inteira sobre liderança, serviço e vida pública. Organizar pessoas para resolver problemas é muito diferente de usar pessoas para conquistar posições. É muito diferente de acumular títulos, produzir ruído, ocupar palco ou alimentar vaidades. Organizar pessoas para resolver problemas exige uma disposição interior rara: a capacidade de colocar a causa acima do ego, o método acima da espuma, o bem comum acima da pequena vitória individual.

Com as devidas proporções, e sem qualquer pretensão de comparação, senti-me próximo dessa ideia.

Talvez porque, no fundo, também tenho procurado fazer isso ao longo da vida: juntar pessoas, criar pontes, organizar vontades e transformar energias dispersas em respostas concretas. Nem sempre com sucesso. Nem sempre com reconhecimento. Nem sempre com a leveza que gostaria. Mas sempre com a convicção de que há uma forma de serviço que não vive dos holofotes, mas da persistência.

Centrando-me no âmbito desta reflexão, Série Respirações da Alma — Ensaios sobre o Bem e o Mal, sou levado a pensar que talvez seja aí que começa uma das grandes tensões entre o bem e o mal.

O mal nem sempre se apresenta com rosto monstruoso. Raramente chega anunciado. Muitas vezes veste-se de indiferença, de calculismo, de cinismo, de vaidade institucional, de ressentimento silencioso, de pequenas cobardias quotidianas. O mal instala-se quando deixamos de tentar juntar porque é mais cómodo dividir. Quando deixamos de escutar porque é mais fácil rotular. Quando transformamos diferenças legítimas em trincheiras permanentes. Quando já não queremos resolver problemas, mas apenas provar que tínhamos razão.

O bem, pelo contrário, raramente faz barulho. O bem não precisa necessariamente de proclamações. Trabalha muitas vezes em silêncio. Junta. Repara. Costura. Sustenta. Organiza. Levanta-se cedo, pega no café, lê, pensa, duvida, volta a tentar.

O bem é, muitas vezes, uma forma persistente de organização da esperança.

Acredito que os portugueses estão sedentos de um sebastianismo que tarda a chegar. Mas talvez o nosso maior equívoco seja precisamente esse: esperar por uma figura salvadora, quando aquilo de que mais precisamos é de pessoas capazes de convocar, articular, ligar e construir.

Talvez precisemos menos de salvadores e mais de organizadores de vontades.

O salvador infantiliza-nos. O organizador responsabiliza-nos.
O salvador pede espera. O organizador exige participação.
O salvador concentra a esperança num rosto. O organizador distribui a esperança por muitos braços.
O salvador promete redenção. O organizador constrói caminho.

E talvez Portugal tenha sofrido demasiado tempo desta tentação: a espera por alguém que venha resolver por nós aquilo que só poderemos resolver connosco. Esperamos por um gesto, por um líder, por um milagre, por uma providência, por uma reforma definitiva, por uma regeneração que venha de cima.

Mas os países não se reerguem apenas por decreto, nem as comunidades se curam apenas por proclamação. Reerguem-se quando há uma massa crítica de pessoas disponíveis para saírem de si mesmas e trabalharem sobre aquilo que as ultrapassa.

Precisamos de sair dos nossos “minifúndios temporais”, como tão bem escreveu o Professor Carlos Fiolhais. A expressão é duríssima porque nos descreve com precisão. Vivemos tantas vezes fechados em parcelas pequenas de tempo, de interesse, de pertença, de conveniência. O meu partido. A minha instituição. A minha carreira. O meu grupo. A minha urgência. O meu pequeno território de influência. O meu cálculo.

E, enquanto cada um defende o seu minifúndio, o país vai perdendo escala moral.

Temos silos ideológicos, silos políticos, silos profissionais, silos institucionais, silos académicos, silos empresariais, silos geracionais. Falamos muito de colaboração, mas praticamos frequentemente a suspeição. Falamos de inovação, mas protegemos zonas de conforto. Falamos de futuro, mas negociamos quase tudo a partir do medo de perder o pequeno poder que já temos.

E depois espantamo-nos com a ausência de grandeza.

A grandeza de um país não nasce apenas do talento individual. Nasce da capacidade de converter talento disperso em propósito partilhado. Nasce quando a inteligência deixa de ser ornamental e passa a ser operacional. Nasce quando a cultura deixa de ser pose e passa a ser responsabilidade. Nasce quando a política deixa de ser teatro de antagonismos e volta a ser arquitetura do bem comum.

Custa-me aceitar que só consigamos cumprir quando somos obrigados por lei. E custa-me ainda mais perceber que, tantas vezes, mesmo quando cumprimos formalmente, falhamos na substância. Cumprimos o procedimento, mas não o espírito. Cumprimos a norma, mas não a missão. Cumprimos para evitar sanção, não para honrar uma responsabilidade.

Mas uma sociedade que só cumpre por medo ainda não amadureceu moralmente.

A lei é necessária. Evidentemente. Mas nenhuma lei substitui a consciência. Nenhum regulamento substitui a ética. Nenhum diploma substitui a convicção.

É aqui que a reflexão se torna inquietante.

Porque talvez o nosso problema não seja apenas político. Talvez seja espiritual, cultural e moral. Talvez tenhamos desaprendido a reconhecer o bem comum como categoria viva. Talvez tenhamos reduzido a cidadania a opinião, a participação a queixa, a responsabilidade a obrigação externa, a liderança a gestão de imagem.

E quando uma comunidade já não sabe distinguir entre servir e aparecer, entre construir e ocupar, entre liderar e controlar, então começa a perder a sua respiração interior.

O bem comum não é uma palavra bonita para discursos solenes. Não, não é ! É uma exigência concreta. Mede-se na capacidade de cooperar com quem pensa diferente. Mede-se na humildade de partilhar mérito. Mede-se na coragem de abdicar de protagonismo quando a causa assim o exige. Mede-se na disposição para fazer trabalho invisível. Mede-se na persistência de quem continua a construir mesmo quando os aplausos vão para outros.

Organizar vontades é talvez uma das tarefas mais difíceis do nosso tempo, porque vivemos numa época que estimula a fragmentação permanente. Cada um com a sua narrativa. Cada um com a sua tribo. Cada um com a sua indignação. Cada um com a sua verdade performativa. Cada um com o seu pequeno púlpito digital.

Nunca tivemos tanta capacidade de falar e talvez nunca tenhamos tido tanta dificuldade em conversar. Nunca tivemos tantos meios para nos ligarmos e talvez nunca tenhamos estado tão treinados para nos separarmos. Nunca tivemos tanta informação. Talvez nunca tenhamos tido tanta escassez de sabedoria prática.

Por isso, organizar vontades não é apenas uma competência política, institucional ou profissional. É uma tarefa moral. É recusar a tentação de transformar o outro num obstáculo. É acreditar que ainda há pontes possíveis. É criar condições para que a inteligência coletiva supere a vaidade individual. É colocar método onde há dispersão, confiança onde há suspeita, horizonte onde há cansaço.

Quem me conhece sabe que repito isto quase diariamente. Continuarei a fazê-lo, até à exaustão se for necessário: Portugal precisa de recuperar a capacidade de construir causas comuns. Precisa de instituições que dialoguem. De pessoas que se disponham a servir. De lideranças que não queiram apenas ocupar espaço, mas gerar movimento. De pontes onde hoje há muros. De propósito onde hoje há ruído.

Não precisamos de unanimidade. A unanimidade é muitas vezes estéril.

Portugal só foi verdadeiramente grande quando alguém, com visão, coragem e sentido de destino coletivo, conseguiu juntar muitos em torno do mesmo propósito. Não, quando todos pensavam igual. Não, quando todos vinham do mesmo lugar. Não, quando todos tinham o mesmo interesse imediato. Mas quando uma ideia maior conseguiu convocar diferenças e orientá-las para uma obra comum.

Já o fizemos no passado.

E é por isso que me recuso a aceitar a resignação como destino. E u continuo a acreditar.

….Apesar de tudo. Apesar do ruído. Apesar dos silos. Apesar dos pequenos poderes. Apesar da mediocridade organizada. Apesar da fadiga coletiva. Apesar da tentação permanente de desistir…

Continuo a acreditar que há em Portugal uma centelha antiga, talvez adormecida, talvez soterrada, talvez humilhada por demasiados desencantos, mas ainda viva. Uma centelha de serviço, de engenho, de generosidade, de coragem discreta e de capacidade de fazer muito com pouco quando o propósito é claro.

Se um dia alguém com verdadeira força institucional, visão estratégica e sentido de missão quiser assumir esta bandeira, eu direi presente e colocar-me-ei ao seu serviço. Porque há causas que não pertencem a uma pessoa. Pertencem à humanidade.

Eu, pela minha parte, continuarei a levantar-me cedo. Continuarei a pegar no café. Continuarei a ler. Continuarei a tentar disciplinar a minha inquietude. Continuarei a procurar pessoas, ideias e causas que ainda mereçam ser organizadas em nome de alguma coisa maior.

Porque Portugal já foi capaz.

E porque, apesar de tudo, continuo convencido de que essa centelha ainda vive em nós.

 

Por Jorge Santos-Silva

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