Todos os dias de manhã levanto-me cedo, pego no meu café e faço uma imersão em leitura durante pelo menos uma hora. Há nesse gesto qualquer coisa de silencioso e quase litúrgico. Antes da pressa, antes das mensagens, antes das vozes que disputam o mundo, procuro esse território íntimo onde a alma ainda respira sem pedir licença. Leio, talvez, para não me perder no ruído. Leio, talvez, para contrariar a minha própria inquietude. Confesso que, por vezes, alguns dos livros que me são dados a ler constituem um verdadeiro desafio para mim, que sou uma alma inquieta. Mas talvez seja precisamente essa uma das funções mais nobres da leitura: disciplinar os ímpetos, educar a pressa, contrariar a arrogância das certezas rápidas e obrigar-nos a permanecer diante da complexidade sem fugir. Não sei se o faço da forma mais correta, mas tenho por hábito ler sempre dois livros em simultâneo. Neste momento, estou a ler dois livros que não me foram impostos; fui eu que os escolhi: Se disser a...
A tradição tomasina ensina-nos que a virtude e o vício não são meros comportamentos ocasionais, mas habitus — disposições estáveis da alma adquiridas pela repetição dos atos. São Tomás de Aquino, na Summa Theologica (I-II, q. 49-55), define o habitus como uma qualidade “difícil de remover”, que inclina o ser humano a agir de determinado modo. A virtude é, pois, o habitus boni , a disposição orientada para o bem conforme a razão e ao fim último; o vício é o habitus mali , o desvio reiterado que arrasta o homem para o prazer ilusório e a desordem moral. Esta distinção ganha vida concreta quando observamos que o bem e o mal não são apenas conceitos, mas ritmos que se instalam na alma . A consciência moral não desperta na abstração, mas no confronto com a prática, por isso o homem não se torna virtuoso por conhecer o bem, mas por praticá-lo continuamente, até que o agir reto se torne natural. Do mesmo modo, o vício nasce e cresce no quotidiano da repetição: cada ato injusto, cada ...